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Morre Roger Allers, codiretor de O Rei Leão: Disney perde o visionário que criou seu maior sucesso


Hollywood perdeu um dos arquitetos do seu renascimento animado. Roger Allers, codiretor de O Rei Leão e figura-chave na era dourada da Disney Animation nos anos 90, morreu aos 76 anos. Sua morte encerra o capítulo de uma geração de animadores que transformou desenhos em eventos culturais globais, e que converteu filmes infantis em fenômenos que transcenderam gerações.
Allers não foi um diretor qualquer. Foi o cérebro por trás do filme animado mais bilheteiro de todos os tempos até a chegada de Frozen, e seu trabalho em O Rei Leão (1994) estabeleceu padrões narrativos e visuais que a indústria ainda persegue. Bob Iger, CEO da Disney, emitiu um comunicado oficial qualificando-o como "visionário criativo cujas contribuições perdurarão por gerações". Não é hipérbole corporativa: milhões de pessoas têm memórias formadoras associadas aos seus filmes.

O homem que transformou Shakespeare em savana africana
O Rei Leão começou como projeto interno da Disney chamado "Bambi na África", uma ideia que soava tão genérica que a maioria dos animadores do estúdio preferiu trabalhar em Pocahontas, considerada a aposta forte de 1994. Allers e seu codiretor Rob Minkoff herdaram o que muitos viam como o projeto B. O que fizeram com essa oportunidade mudou a animação para sempre.
Allers entendeu que O Rei Leão não era um filme sobre leões, era Hamlet com garras. Tomou a estrutura dramática shakespeariana, transplantou-a para a savana africana, adicionou música de Elton John e Tim Rice, e construiu uma narrativa sobre paternidade, perda e redenção que conectou com audiências globais de formas que a Disney não antecipou. O filme arrecadou mais de 968 milhões de dólares em sua estreia original, cifra estratosférica para 1994, e se tornou fenômeno cultural que segue vivo três décadas depois.
Mais que O Rei Leão
Embora O Rei Leão defina seu legado, Allers foi peça fundamental em outros clássicos do chamado "Renascimento Disney". Trabalhou como animador e storyboard artist em A Pequena Sereia (1989), Aladdin (1992) e A Bela e a Fera (1991), três filmes que resgataram a Disney de uma década terrível nos anos 80. Sua capacidade de visualizar narrativa, traduzir roteiros em sequências visuais coerentes, foi uma das razões pelas quais Jeffrey Katzenberg o promoveu a diretor.

Após O Rei Leão, Allers tentou repetir a fórmula com The Sorcerer's Apprentice, uma sequência planejada de Fantasia que a Disney cancelou em estágios avançados de produção. Frustrado com a política corporativa do estúdio, Allers deixou a Disney e trabalhou em projetos independentes, incluindo Open Season (2006) para a Sony Pictures Animation. Nunca mais alcançou o sucesso comercial de sua obra-prima, mas poucos diretores de animação o conseguem.
O impacto cultural de uma geração
Allers pertencia à geração de animadores que salvou a Disney quando o estúdio parecia irrelevante. Nos anos 80, a companhia estava em crise: filmes fracassados, executivos em guerra, perda de identidade criativa. Foi a equipe de Allers, junto com nomes como Glen Keane, Andreas Deja e John Musker, que resgataram a marca com uma série de filmes que definiram a infância de milhões de pessoas nascidas entre 1985 e 2000.
O Rei Leão em particular se tornou texto cultural compartilhado. Suas canções são karaokê universal. Suas frases são memes antes de o conceito existir. "Hakuna Matata" entrou na linguagem cotidiana. A cena de Mufasa caindo no cânion traumatizou gerações inteiras de crianças e lhes ensinou o que é a perda. Allers codificou esses momentos com precisão cirúrgica: sabia exatamente quando fazer rir, quando partir corações e quando oferecer redenção.
A animação que deixou para trás
A indústria que Allers ajudou a construir já não existe. A animação 2D tradicional morreu como formato dominante nos anos 2000, substituída por CGI. A Disney fechou seus estúdios de animação tradicional em 2004 (reabriu brevemente para A Princesa e o Sapo em 2009, depois fechou definitivamente). Os animadores que desenhavam à mão foram substituídos por artistas que modelam em computadores. O ofício que Allers dominava se tornou arte de museu.
No entanto, sua influência persiste. Os cineastas de animação atuais cresceram assistindo O Rei Leão e estudando sua estrutura narrativa. O filme continua sendo caso de estudo em escolas de cinema. O remake em CGI de 2019 (que muitos fãs odiaram por carecer da alma do original) arrecadou 1,65 bilhão de dólares, prova de que a propriedade intelectual que Allers criou continua sendo máquina de dinheiro para a Disney.
Allers não deixou declarações públicas recentes sobre seu legado, nem participou ativamente da promoção do remake. Retirou-se discretamente da vida pública anos atrás, deixando que seu trabalho falasse por ele. E como fala: O Rei Leão continua sendo exibido em cinemas, transmitido em milhões de lares, encenado como musical da Broadway desde 1997 e faz parte do DNA cultural de pelo menos duas gerações. Poucos artistas alcançam esse nível de permanência.
A Disney perde um visionário. A animação perde um mestre. E milhões de pessoas que cresceram cantando "Circle of Life" acabam de saber que o homem que lhes deu essas memórias já não está. O ciclo da vida, de fato.
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