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A Academia resistiu ao cinema de terror durante décadas. Sinners acaba de vencer a guerra.


No dia 22 de janeiro de 2026, Sinners recebeu 16 nomeações para os prémios da Academia. Não 14, que era o teto histórico partilhado por Eva (All About Eve), Titanic e La La Land. Não 15, o que já teria sido notícia. Dezasseis. Com este número, Ryan Coogler obteve também as suas primeiras nomeações pessoais por realização e argumento original, tornando-se o sétimo cineasta negro nomeado para o Óscar de Melhor Realizador. O último tinha sido Spike Lee, há sete anos.
O filme, passado no Delta do Mississípi em 1932, custou entre 90 e 100 milhões de dólares, tem classificação R e é protagonizado por vampiros. A Academia nomeou-o para 16 categorias. Ambas as coisas são verdade ao mesmo tempo.

Por que é que 16 nomeações para um filme de terror mudam as regras do jogo
A marca representa uma mudança de paradigma para os votantes da Academia, historicamente relutantes a premiar produções de terror ou suspense sobrenatural. Não é que a Academia ignorasse o género por descuido. Ignorava-o por convicção: o terror como produto de entretenimento popular, não como arte. Sinners não quebrou esse preconceito através de argumentos para os convencer. Quebrou-o ao faturar 369 milhões de dólares mundialmente, com um orçamento de 100 milhões, realizando em simultâneo um dos comentários sociais mais densos sobre a era Jim Crow que Hollywood produziu em anos.
O filme conseguiu recuperar o seu investimento nas três primeiras semanas de exibição, impulsionado pelo entusiasmo gerado pelo regresso da dupla Coogler-Jordan. Esse desempenho comercial não é um aspeto menor na equação de prémios: torna Sinners um argumento vivo de que o cinema de autor financiado por estúdios e exibido nas salas de cinema pode funcionar sem as muletas do universo cinematográfico partilhado ou a nostalgia de uma franquia.
Nota para um detalhe que explica tudo isto melhor do que qualquer análise de público. Antes de a Warner Bros. ficar com os direitos de distribuição, Coogler exigiu como principal condição de contrato: 25% das receitas a partir do primeiro dólar, edição final (final cut) e a propriedade do filme vinte e cinco anos após a sua estreia. O estúdio aceitou. Não por Coogler lhes cair bem, mas sim porque o realizador de Black Panther detinha o capital simbólico e comercial para pedir aquilo que os realizadores andam a sonhar pedir há décadas. A indústria chama a este resultado um "blockbuster de autor". O que na verdade é trata-se de um realizador que leu na perfeição o seu momento de poder e o utilizou.
A temporada de prémios: do SAG ao Dolby Theatre
Os 32.º Screen Actors Guild Awards, celebrados no domingo 1 de março em Los Angeles, viram Sinners ganhar o galardão mais importante da classe: Melhor Elenco Num Filme. A outra vitória da noite foi mais reveladora. Michael B. Jordan ergueu o prémio de Melhor Ator, destronando Timothée Chalamet, que até àquele momento era o favorito indiscutível. Jordan subiu ao palco dizendo que não contava minimamente com isso. O público achou que era modéstia de ator. Provavelmente era mesmo verdade.
Jordan, cujo primeiro papel como protagonista no cinema decorreu doze anos antes em Fruitvale Station, também de Coogler, recebeu com Sinners a sua primeira nomeação ao Óscar. O círculo completo que abrangem esses doze anos juntos é o tipo de narrativa que a Academia entende e aprecia. Não é manipulação; é que a história real às vezes tem melhor estrutura do que as dos argumentos.
Delroy Lindo, com 73 anos e uma carreira de décadas em Hollywood, recebe com este filme a sua primeira nomeação, para a categoria de Ator Secundário. Setenta e três anos. Primeira nomeação. A Academia, mais uma vez, a descobrir tarde o que o público já sabia desde Malcolm X.

O que Sinners diz sobre algo maior
Sinners concorre a 15 de março no Dolby Theatre com Una batalla tras otra (One Battle After Another), com 13 nomeações, que ganhou o Globo de Ouro para Melhor Filme e o Critics Choice Award correspondente. Logo a seguir a estas, a adaptação de Frankenstein de Guillermo del Toro acumula 9 nomeações, basicamente em áreas técnicas.
A corrida, no papel, faz-se entre dois filmes. Contudo, o que se discute em torno de Sinners remete-nos a uma única pergunta: é possível Hollywood conseguir financiar cinema audacioso de género, filmado a 65 milímetros, com orçamento de blockbuster e total liberdade criativa, e além disso triunfar nas bilheteiras?
Tananarive Due, escritora e perita em terror, resumiu as coisas de forma precisa: "Não creio que pudesse ter havido outro realizador negro com o dinheiro nas mãos para fazer um filme como Sinners. Ryan Coogler era o único com o capital certo para concretizar esta visão." Trata-se de um elogio. Também é um diagnóstico sobre o estado da indústria: para que existam filmes com este selo, foi preciso que alguém mostrasse ser capaz de encher as salas com super-heróis em primeiro lugar.
O design de produção da igreja no filme incluiu vigas em cruz que recriam o gesto de "Wakanda Forever", a título de homenagem a Chadwick Boseman. Ninguém na equipa o referiu explicitamente na campanha para conquistar as estatuetas. Acabou relatado nas entrevistas aos técnicos do filme. Trata-se do tipo de aspeto que, assim que se o souber, reenquadra as ideias do filme todo.
15 de março: o que ninguém pode calcular ainda
A lista de apresentadores já confirmados do evento regista nomes dos quatro galardoados pela sua representação em 2025: Adrien Brody, Kieran Culkin, Mikey Madison e Zoe Saldaña, ladeados por Javier Bardem, Chris Evans, Demi Moore e Maya Rudolph. Miles Caton, o ator novato que vestiu a pele do músico de blues Sammie Moore, vai cantar ao vivo o tema indicado "I Lied to You".

Coogler já fez as 16 nomeações. Isto em si já reflete aquilo que vai ficar na história, independentemente daquilo que for a cerimónia deste domingo 15. A única pergunta sem resposta até ao fim de tal noite vai ser apenas esta: quantas vão transmutar-se mesmo em estatuetas de ouro? Acaso será uma Academia da sétima arte que desdenhou pelo formato ao conceber as peças como divertimento de sub-categoria a deixar-se finalmente capaz de fazer acabar com os prémios aquilo mesmo que resolveu começar na seleção inicial das sugestões em janeiro?
O recorde existe por si mesmo. Aquilo que no fundo se não sabe será se correspondeu afinal isso a todo um bom princípio das coisas para uma viragem final ou foi antes tudo meramente isso, a ponta do iceberg de mais uma exceção isolada e nada disto ser feito por gosto.
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